segunda-feira, 21 de novembro de 2011

SER CAIÇARA

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)
CONSIDERA-SE CAIÇARA O HABITANTE DO LITORAL SUL DO RIO DE JANEIRO ATÉ O LITORAL NORTE DO PARANÁ.

Os moradores da Juréia só muito recentemente, após os contatos mais constantes com as pessoas procedentes das áreas urbanos, pesquisadores, jornalistas, técnicos etc, passaram a incorporar o termo CAIÇARA  como um sinônimo de si próprio. Eles acabam aceitando que as pessoas os tratem por caiçaras. Esse tipo de permissão não é um auto-reconhecimento, mas não deixa de ser um reconhecimento da identidade imposta. É através do termo caiçara que eles se reconhecem enquanto grupo social para a sociedade abrangente. Apesar das muitas diferenças culturais entre os moradores da Juréia, estes passam a constituir um grupo hegemônico quando se denominam caiçaras. Para o mundo externo, em suas apresentações culturais, nos eventos acadêmicos, em reuniões políticas e reivindicatórias, o uso do termo CAIÇARA é bem freqüente. 
Ser caiçara assume grande importância, por exemplo, na luta pelos seus direitos e anseios, uma vez que o uso do vocábulo morador não provoca no imaginário urbano de quem ouve a imagem imbólica que o termo CAIÇARA produz. No mínimo as pessoas tem uma idéia de que o  caiçara é a pessoa que vive no litoral, pesca e faz artesanato. 
Para os moradores da Juréia, é importante se sentir parte integrante de um grupo social reconhecido pela sociedade, isso lhes confere uma existência real, lhes dá visibilidade, é como se eles se materializassem. A passagem do abstrato para o concreto é muito importante, porque depois de tanto sofrer punições, ameaças, maus tratos, explorações, ficou nessas pessoas um sentimento de “não existência”, de “não ser real”, caso contrário “não seriam tão maltratados”. Também resgata sua auto-estima positiva a partir do momento em que os faz sentir portadores de uma identidade que legitima suas reivindicações pelo reconhecimento nacional de sua cultura secular, muito semelhantemente ao reconhecimento dado aos grupos indígenas e aos quilombolas. Nas conversas com aqueles moradores mais ligados às tradições musicais e festivas da região, eles perguntam se a “gente não acha bonito, se aquilo que eles fazem não é importante”.
Mas o que é ser caiçara?
Segundo o Dicionário Aurélio de 1986, caiçara era sinônimo de: vagabundo, malandro, caipira e praiano, além de designar o habitante de Cananéia e as cercas feitas de madeira para usos diversos. As novas edições, já trazem as modificações exigidas pelos próprios caiçaras. 
MONTEIRO (2002) faz uma reflexão bem interessante quando ao significado do termo caiçara. Há dezenas de edições que este dicionário traz essa explicação, porém a partir do momento que eles se reconhecem como caiçaras, há uma revolta geral pela ratificação do significado atribuído ao caiçara:
Se até poucos anos atrás não se auto-denominavam dessa forma, a adoção repentina desse nome passou a exigir um certo zelo, cuidado e preocupação em relação ao uso e aos usos e significados a ele atribuídos. Entretanto, se o termo é impregnado de conotações pejorativas, por quê sua adoção? A pergunta não é gratuita. Sua resposta exige o entendimento do contexto social e político mais amplo em que se situa a própria essência do movimento desses moradores: a adoção desse termo está diretamente vinculada ao debate que se trava da relação entre populações tradicionais e preservação ambiental, principalmente no âmbito do Vale do Ribeira. Significa dizer que esse grupo de moradores se afirma como caiçaras, na medida em que, nesse debate, são vistos e considerados como tal. Geograficamente se caracterizam por viverem em bairros ou comunidades esparsas, e em algumas casas ou sítios semi-isolados. Os limites entre as propriedades (geralmente posses) são “apalavrados” como dizem os nativos da Juréia, não existem cercas reais entre elas. Somente se a pessoa “for botar” criação é que faz um cercado.

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