segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O DESABAFO

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)

A grande parte das entrevistas começam com um desabafo dos entrevistados sobre a situação de vida atual e o passado vivido no sítio.  Algumas pessoas carregaram sua fala com mais raiva,  outras com mais tristeza, algumas ainda esperançosas de dias melhores.  “Recramo, ô... recramo porque lá, lá a gente tinha a vida da gente, sabe, agora aqui é tudo diferente, pessoal que saí de lá, eu penso assim, pessoa que sai de lá vive como um passarinho na gaiola, peixe fora d’água... esse tipo assim... pessoa que sai de lá e diz que se acostuma noutro lugar tá mentindo, faz que se acostuma assim por, pra se mostrá, mas por dentro eu acho que não... Eu memo não acostumo... Aqui é muito diferente... muda muito a vida, o pessoal vindo de lá... é diferente, infelizmente eu memo não posso ir prá lá por causa das criança né, por causa do estudo, eles não acostuma lá mais mas eu mesmo não me acostumo prá cá de jeito nenhum...”  Ex-moradora 
É comum nos depoimentos a fala sobre a necessidade de deixar a Juréia por falta de escola para os filhos. E é comum também o lamento de que dificilmente poderão retornar, pois os filhos não querem. Alguns deles nem conhecem a Juréia e não querem conhecer.  “Era muito bom sabe porque? Porque a gente vivia tranqüilo, num tinha problema, nos trabalhava, trabalhava em serviço de roça, em qualquer serviço. Não tinha perseguição, não tinha problema nenhum, e hoje depois que começou a ecologia, essa Estação lá, ficou complicado”. Morador
Na fala deste morador aparece um termo que irá ser recorrente em tantos outros depoimentos: a perda da tranqüilidade depois da criação da EEJI. “antes que chegasse a EE aqui era tudo bom. Todo mundo trabalhava, todo mundo vivia, fala a verdade, todo mundo...quem queria vivê vivia de plantá arroz, plantá mandioca, cotava seu palmito pra vivê, usa a tinta, matava sua caça pra come, não pra vendê não, pra come, pescava em qualquer parte, era uma vida solto do povo, solto, tinha embarcação aí, nesse Rio das Pedras, 3,4 embarcação todo dia aí, hoje em dia não tem mais nada porque a EE acabou com tudo, com tudo. Acabou mesmo, pode dizer que não tem mais nada por causa disso. Eu conheço isso aqui. Há 30 anos pra cá que começou isso aí direto, desmontou tudo mundo, acabou com tudo mundo, matou tudo o pessoal que tinha aqui. Alguém que morreu, morreu, quem não morreu saiu, porque pra morrer de fome ninguém vai ficar num lugar desse aqui, né. Tamo ficando nós porque nós somo empregado, se não fosse nosso emprego já tinha morrido de fome. Não dá pra trabalha, faze nada”. Morador . Um dos moradores queixou-se dizendo que a situação está tão complicada que é difícil até para morrer na Juréia:
"Hoje em dia vou falar prá senhora, vai ficar gravado aí, mas vou falar a verdade, mas aqui tá difícil até prá morrer. Prá tirar um defunto daqui é preciso cortá os quarto dele. Porque não tem mais ninguém.  Se uma pessoa morre num lugar desses aí, uma pessoa sozinha fica com ele à noite interia porque não tem jeito, num tem prá onde correr, porque não tem recurso. A gente tem medo de correr prá um vizinho, fica com o morto lá. Tamo nessa situação nesse lugar!"

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