terça-feira, 15 de novembro de 2011

Canoa Caiçara

Apresentação

     Em meados do século XIX, as canoas de voga, movidas a vela e a remo, reinavam absolutas pelo litoral norte, transportando a força motriz da economia da região, baseada na cana-de-açúcar e na produção de aguardente.
     Por elas, mandavam para Santos tonéis de aguardente, além de fumo e produtos agrícolar. Com o passar dos anos, foram substituídas por barcos a motor e perderam a corrida contra a modernização dos meios de transporte.

História

     Aos 98 anos de idade, o pescador Crisante Manoel Moreira é um dos poucos personagens que testemunharam esta fase da história a bordo de uma canoa. Lúcido e de fala rápida, esse típico caiçara da praia de Boiçucanga, costa sul de São Sebastião, lembra que, por volta de seus 20 anos de idade, acompanhava o pai e outros familiares até o mercado santista, para venderem tainha, laranja e banana. Com o dinheiro arrecadado, traziam arroz, feijão e carne, que, na época, eram considerados itens de luxo na panela do caiçara.


     Moreira passou boa parte da vida a bordo de uma canoa. Pescou até os 75 anos, quando problemas de saúde o afastaram do mar. Curiosamente, apesar de todo esse tempo navegando, Moreira nunca soube nadar e diz ter contado sempre com a proteção de Deus. "Saindo com fé, não acontece nada.", acredita.
     Hoje, enxerga apenas com a vista esquerda e caminha com dificuldade. Não tem esposa, nem filhos. Vez ou outra, sai para catar latas na praia, que depois vende como sucata para complementar a aposentadoria. Ao recordar os momentos no mar, os olhos do pescador chegam a brilhar: "Tenho uma saudade danada desse tempo. Às vezes, deito na cama e fico lembrando...", confessa Moreira.

Ritual da produção

     A canoa de voga é feita a partir de um único tronco de árvore (geralmente cedro, jequitibá ou guapuruvu). Três são as ferramentas básicas para talhar uma canoa: o machado, o enxó (de cabo curto e lâmina curva) e plaina, para alisar a madeira.
     O mestre canoeiro Raimundo Rafael Filho, 52 anos, herdou do pai a técnica para produzir canoas. Ele explica que, no local onde a madeira era extraida, acontecia o "arraso" - Quando o tronco começa a ser esculpido, para facilitar o transporte. Em seguida, fazia-se a "puxada" que, para Rafael Filho, era "a parte mais legal". Um cabo era preso na canoa e os 'camaradas' arrastavam até o lugar onde ela seria terminada. Geralmente, envolvia de 20 a 40 pessoas. Depois a turma se reunia na casa do dono para comer canjica cozida, narra o canoeiro da bucólica praia do Bonete, em Ilhabela.


Cultura Ameaçada

     O rigor da legislação ambiental, que proíbe o corte de árvores da Mata Atlântica para a confecção de canoas, aliado a morte dos antigos mestres canoeiros, praticamente extinguiram a fabricação desse tipo de embarcação. Com o passar dos anos, as canoas deram lugar a barcos de fibra ou de alumínio. Mesmo assim, Rafael está empenhado na produção de duas canoas que serão doadas a pescadores. O trabalho faz parte de um projeto lançado pela prefeitura de São Sebastião, com o objetivo de manter viva essa tradição. O assessor da Secretaria de Cultura, Reinaldo de Santana, diz que "a canoa faz parte da identidade do caiçara e é fundamental que as novas gerações conheçam a nossa cultura".
     Ele, que também é caiçara, lembra que sua mão viajava em canoa de voga para ir à escola. "Aqui só tinha até o primário. As famílias tradicionais que podiam pagar as despesas iam para Santos se formar".
As árvores utilizadas como matéria-prima nesse projeto foram retiradas pela Defesa Civil, pois apresentavam risco de queda ou já estavam derrubadas. Uma das canoas está sendo construída na Rua da Praia, no Centro Histórico de São Sebastião, e chama a atenção, especialmente de turistas que passam pelo litoral. 
     A outra foi levada para o prédio da Faculdade de Tecnologia (Fatec), em São Sebastião, onde os alunos do curso de Gestão Empresarial acompanham todo o processo de produção e aplicam os conhecimentos em sala de aula.
     Ações isoladas que tentam, de alguma forma, preservar uma tradição que, embora ameaçada de extinção, segue como um dos mais fortes símbolos da cultura caiçara e da história de um povo.

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