segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ECOS DO FUTURO

Fazer prognósticos de como será o futuro dos moradores e da Estação Ecológica Juréia-Itatins não é muito fácil.  A julgar pelos depoimentos, a descrença em um futuro melhor é completa. A sensação quando se conversa com as pessoas da Juréia, é a de que elas acham que sua situação tende a piorar, mas não dispõe de mais energia para ao menos tentar lutar por seus direitos. 
Passados 17 anos  da criação da estação ecológica, as pessoas ainda perguntam “com desconfiança” quais as reais intenções do governo e dos ambientalistas em criar a unidade de conservação. No depoimento de uma ex-moradora do Rio Verde, podemos notar sua indignação e a incompreensão do porque eles estão sendo tão maltratados:
Apesar das pessoas estarem cansadas e sem esperança, algumas iniciativas nos últimos três anos, fez surgir uma chama de esperança de que algumas coisas mudem para melhor.
O CAIÇARA HOJE

As comunidades caiçaras vêm sentindo cada vez mais as influências do mundo moderno. O contato leva estudiosos e os próprios habitantes a atentar para mecanismos de preservação das tradições, dos valores e dos ambientes naturais dessas regiões. Mas foi impossível impedir a proximidade do homem urbano e com ela a mudança do estilo de vida ligado à natureza. As comunidades caiçaras passaram a chamar a atenção de pesquisadores e de órgãos governamentais, em virtude das ameaças, maiores a cada dia, à sua sobrevivência material e cultural. A contribuição que esses povos têm dado à conservação da biodiversidade tem sido cada vez mais reconhecida e valorizada, dado o conhecimento que possuem da fauna e da flora e pelos sistemas tradicionais de manejo dos recursos naturais.
A preocupação acerca da chegada da modernidade aos vilarejos vem também do fato de que uma cultura como a caiçara não tem mecanismos de competitividade suficientes para sobreviver às pressões da sociedade urbana. É nesse choque de valores que as tradições podem se perder. O cuidado deve estar em não permitir que se rompam os laços com as raízes, basicamente ensinamentos indígenas que, até mesmo, possibilitaram a sobrevivência dos primeiros portugueses nas matas litorâneas, como o uso das ervas medicinais na cura de diversos males.
Entre as ameaças ao estilo de vida das populações praianas e ao próprio meio ambiente estão a especulação imobiliária nessas regiões, que leva as populações locais para longe da área costeira - muito valorizada - e dificulta suas atividades pesqueiras. O turismo de massa também tem sua responsabilidade. Se, por um lado, a atividade incrementa a economia regional, por outro, quando não regulamentada e fiscalizada, põe em risco o equilíbrio nas matas e praias. Isso deve estar fundamentada não somente em relevância científica, mas, sobretudo em relevância social. Vivemos numa sociedade coberta à custa de várias contradições e injustiças sociais que prescindem de informações para respaldar ações que tragam melhoria de qualidade de vida para a população brasileira, mesmo que, por vezes, a solução dos problemas esteja vinculada muito mais a interesses políticos e econômicos, do que ao desconhecimento sobre determinado assunto.
Tragédias como a da Serra do Mar, em São Paulo, transformada gradativamente em um enorme cemitério de árvores (início da década de 1980), exibindo a morte da Mata Atlântica em decorrência da poluição do Pólo Industrial de Cubatão/SP, e o projeto de instalação de usinas nucleares na região da Juréia, despertaram o interesse pelos problemas ambientais em curso. Como resposta, inúmeros foram os movimentos de contestação, atos públicos, passeatas, exigindo que providências políticas fossem tomadas. 
Esses exemplos são bastante significativos de que a mobilização social aliada à mídia, pode reverter processos políticos e econômicos em andamento. Medidas de contenção e repovoamento da Mata Atlântica com espécies nativas e a fiscalização do parque industrial de Cubatão com a obrigatoriedade de instalação de equipamentos e filtros anti-poluição, representaram o início de uma consciência ambiental da sociedade e do governo, visto que essa “vergonha” nacional tornou-se mundialmente pública, como um “alerta” do que pode acontecer, tanto em termos da fragilidade do ambiente natural, como também em termos da
fragilidade humana e social, quando projetos de desenvolvimento são implantados de forma indevida. 
Pressupomos a manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana, admitindo apenas o uso indireto de seus atributos naturais. Ainda hoje, pouco se alterou em relação à situação difícil vivida pelos moradores. Houve sim, uma enorme evasão e dispersão da população para os bairros próximos. 
                                                 
 É preciso inverter a perspectiva. Essas populações têm vivido e sofrido o impacto do estranho, que não só invade territórios tribais e terras camponesas, confinando ou expulsando, mas também quebra a linhagem
de família, destrói relações sociais, clandestiniza concepções culturais, valores, regras – vitais para a sobrevivência de tribos indígenas e comunidades rurais. No mínimo, repositórios de concepções alternativas
do humano, que nossa sociedade, em seu conjunto, belicosa e violenta, vem perdendo ou já perdeu.
É preciso tomar o ponto de vista do outro, do nativo, para apreender o modo de pensar deles, os seus saberes, o seu sistema de crenças e etc.

A cultura é o principal elemento de identificação de um povo, porém esta não é estática, está em constante transformação..   entendo caiçara como sendo a mescla étnico-cultural entre índios e colonizadores europeus, sobretudo os portugueses. Possuem um modo de vida característico, baseado na estreita relação com a natureza e seus recursos, onde sobressai a pequena agricultura de coivara (as roças de arroz, mandioca, milho, feijão, etc.); o extrativismo; a caça para alimentação própria; a pesca e o artesanato.  A venda dos excedentes da produção agrícola e dos produtos retirados da floresta (sobretudo palmito e caxeta) garantia a obtenção de dinheiro para aquisição dos produtos que o “sítio” não lhes proporcionavam: sal, remédios, vestimentas, sabão, etc. 

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