Com quantos paus se faz uma canoa?
A visão da natureza na construção de uma embarcação típica caiçara. Estudo de caso da construção de uma canoa de tronco na FATEC São Sebastião
Janaina de Abreu Gaspar (FATEC São Sebastião) janainadeabreu@uol.com.br
Marlette Cassia Oliveira Ferreira (FATEC São Sebastião e IF Caraguatatuba) marlettecassia@hotmail.com
Resumo
A consciência da valorização da natureza, do vínculo com o passado, da identidade e da herança cultural, que possibilitam o equilíbrio com a vida contemporânea, justifica o tema deste trabalho. O objetivo do artigo é analisar a importância da manutenção da cultura caiçara que valoriza a relação do homem com a natureza. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica e a entrevista ao caiçara Raimundo, durante o acompanhamento da cunhagem de uma canoa típica caiçara. Conclui-se com esta pesquisa que é importante a manutenção da cultura caiçara, na gestão do processo de cunhagem de uma canoa de tronco, pois ela valoriza a relação entre a conservação da natureza e a atuação do homem de forma sustentável.
1 Introdução
O objetivo desta pesquisa é analisar a importância da manutenção da cultura caiçara que
valoriza a relação da sociedade com a natureza.
Tal trabalho foi resultado do convênio firmado pela FATEC - Faculdade de Tecnologia São Sebastião com a Prefeitura da Cidade.
2 A cultura caiçara e sua preservação
As culturas tradicionais estão em constante mudança, “o confronto de dois saberes: o tradicional e o científico moderno”. Ela cita Cotrim (2006) e (Chauí, 1998, p.71) “a razão, a verdade e as idéias racionais são adquiridas por nós através da experiência” .
“um grande número de ações, projetos e programas sendo desenvolvidos em prol da natureza, por iniciativas públicas ou privadas”, (SECRETARIA DE MEIO AMBIENTE, 2006, p.23). Em função da lei qualquer supressão da mata nativa deve ser autorizada pelo DEPRN – Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais, afirma a Secretaria de Meio Ambiente (2006), porém em muitos casos argumenta-se que a contravenção não é feita de má fé, mas por necessidade de sobrevivência ou por desconhecimento da legislação.
3 A arte da construção de canoas
Considerado por Aranha e Martins (2005, p.42) um “instrumento que permite introduzir maior rigor na experimentação”.
Os índios carijós utilizava-se técnicas e esse conhecimento foi trazido de geração em geração, mesmo ameaçado de extinção devido a alguns fatores como o desenvolvimento de novos meios de sobrevivência.Ainda preserva um conhecimento empírico hoje com algumas modificações nas ferramentas para sua confecção. Encontrada a árvore, é feito o corte do tronco e o „arraso‟, ou seja, a confecção da canoa. Para Marques (2009) o canoeiro precisa considerar o lado em que a árvore toma sol, para que depois de pronta a canoa não fique pensa relata Xavier (1994). O sol, por exemplo, prejudica a canoa e de acordo com o autor alguns produtos naturais têm bom desempenho na preservação da madeira, como o óleo de linhaça por ser secativo e impermeabilizante, acentuar a cor e proporcionar excelente proteção. O mestre Raimundo esclarece que a durabilidade da embarcação varia de acordo com o cuidado, pois a madeira pode apodrecer.
Os procedimentos utilizados na fabricação de um produto podem variar tanto em custos como
em tempo de execução. De acordo com Masi (2000) a tecnologia serve para melhorar a
qualidade de vida e tornar-se uma oportunidade, pois diminui o cansaço e o estresse aflitivo
de épocas mais remotas. O autor também afirma que a principal tarefa do empresário é reduzir
cada vez mais os fatores necessários à produção, principalmente, o tempo. Todavia, de acordo
com Galdino (2008) as ferramentas utilizadas em artigos típicos regionais fazem parte de uma
cultura e da identidade de um povo que adquire os conhecimentos das técnicas através de
treinamento “que se realiza com transmissão de noções por parte de quem os conhece para
quem ainda não os conhece”. Logo, o uso da tecnologia descaracteriza a imagem da cultura e
despersonaliza o processo primário de execução de um artigo específico (MASI, 2000, p.286)
4 Considerações finais
A cultura para Chauí (1998) atua no campo social das idéias, símbolos e valores e se
concretiza segundo Brasil (1997) no modo de agir, nos relacionamentos, nas produções e nos
conhecimentos de uma sociedade. Marcilio (2006) afirma que o caiçara tem relação de
respeito e de equilíbrio muito forte com a natureza, sendo que, a preservação dessa cultura
garante que as futuras gerações conheçam sua identidade, suas raízes e tenham uma relação de
harmonia com a natureza, assim como seus antepassados. O mestre Raimundo diz que
iniciativas como a parceria entre a Fatec e a Prefeitura da cidade de São Sebastião ajudam na
preservação das tradições caiçaras que atualmente estão esquecidas e relata que aprender é
sempre bom, mesmo que já se saiba muito.
. O mestre Raimundo confirma o uso de tecnologias na construção de canoas e afirma que o tempo de fabricação é reduzido quando se emprega “as ferramentas elétricas adiantam o serviço, o trabalho de uma semana é feito em um dia, na verdade, diminui em 70% o tempo de feitura, o problema é que o trabalho perde o charme”. Portanto, avalia-se que o aprimoramento de ferramentas facilita o processo de cunhagem do canoeiro, porém a cultura caiçara tradicional
perde sua identidade.
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