segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ECOS DO FUTURO

Fazer prognósticos de como será o futuro dos moradores e da Estação Ecológica Juréia-Itatins não é muito fácil.  A julgar pelos depoimentos, a descrença em um futuro melhor é completa. A sensação quando se conversa com as pessoas da Juréia, é a de que elas acham que sua situação tende a piorar, mas não dispõe de mais energia para ao menos tentar lutar por seus direitos. 
Passados 17 anos  da criação da estação ecológica, as pessoas ainda perguntam “com desconfiança” quais as reais intenções do governo e dos ambientalistas em criar a unidade de conservação. No depoimento de uma ex-moradora do Rio Verde, podemos notar sua indignação e a incompreensão do porque eles estão sendo tão maltratados:
Apesar das pessoas estarem cansadas e sem esperança, algumas iniciativas nos últimos três anos, fez surgir uma chama de esperança de que algumas coisas mudem para melhor.
O CAIÇARA HOJE

As comunidades caiçaras vêm sentindo cada vez mais as influências do mundo moderno. O contato leva estudiosos e os próprios habitantes a atentar para mecanismos de preservação das tradições, dos valores e dos ambientes naturais dessas regiões. Mas foi impossível impedir a proximidade do homem urbano e com ela a mudança do estilo de vida ligado à natureza. As comunidades caiçaras passaram a chamar a atenção de pesquisadores e de órgãos governamentais, em virtude das ameaças, maiores a cada dia, à sua sobrevivência material e cultural. A contribuição que esses povos têm dado à conservação da biodiversidade tem sido cada vez mais reconhecida e valorizada, dado o conhecimento que possuem da fauna e da flora e pelos sistemas tradicionais de manejo dos recursos naturais.
A preocupação acerca da chegada da modernidade aos vilarejos vem também do fato de que uma cultura como a caiçara não tem mecanismos de competitividade suficientes para sobreviver às pressões da sociedade urbana. É nesse choque de valores que as tradições podem se perder. O cuidado deve estar em não permitir que se rompam os laços com as raízes, basicamente ensinamentos indígenas que, até mesmo, possibilitaram a sobrevivência dos primeiros portugueses nas matas litorâneas, como o uso das ervas medicinais na cura de diversos males.
Entre as ameaças ao estilo de vida das populações praianas e ao próprio meio ambiente estão a especulação imobiliária nessas regiões, que leva as populações locais para longe da área costeira - muito valorizada - e dificulta suas atividades pesqueiras. O turismo de massa também tem sua responsabilidade. Se, por um lado, a atividade incrementa a economia regional, por outro, quando não regulamentada e fiscalizada, põe em risco o equilíbrio nas matas e praias. Isso deve estar fundamentada não somente em relevância científica, mas, sobretudo em relevância social. Vivemos numa sociedade coberta à custa de várias contradições e injustiças sociais que prescindem de informações para respaldar ações que tragam melhoria de qualidade de vida para a população brasileira, mesmo que, por vezes, a solução dos problemas esteja vinculada muito mais a interesses políticos e econômicos, do que ao desconhecimento sobre determinado assunto.
Tragédias como a da Serra do Mar, em São Paulo, transformada gradativamente em um enorme cemitério de árvores (início da década de 1980), exibindo a morte da Mata Atlântica em decorrência da poluição do Pólo Industrial de Cubatão/SP, e o projeto de instalação de usinas nucleares na região da Juréia, despertaram o interesse pelos problemas ambientais em curso. Como resposta, inúmeros foram os movimentos de contestação, atos públicos, passeatas, exigindo que providências políticas fossem tomadas. 
Esses exemplos são bastante significativos de que a mobilização social aliada à mídia, pode reverter processos políticos e econômicos em andamento. Medidas de contenção e repovoamento da Mata Atlântica com espécies nativas e a fiscalização do parque industrial de Cubatão com a obrigatoriedade de instalação de equipamentos e filtros anti-poluição, representaram o início de uma consciência ambiental da sociedade e do governo, visto que essa “vergonha” nacional tornou-se mundialmente pública, como um “alerta” do que pode acontecer, tanto em termos da fragilidade do ambiente natural, como também em termos da
fragilidade humana e social, quando projetos de desenvolvimento são implantados de forma indevida. 
Pressupomos a manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana, admitindo apenas o uso indireto de seus atributos naturais. Ainda hoje, pouco se alterou em relação à situação difícil vivida pelos moradores. Houve sim, uma enorme evasão e dispersão da população para os bairros próximos. 
                                                 
 É preciso inverter a perspectiva. Essas populações têm vivido e sofrido o impacto do estranho, que não só invade territórios tribais e terras camponesas, confinando ou expulsando, mas também quebra a linhagem
de família, destrói relações sociais, clandestiniza concepções culturais, valores, regras – vitais para a sobrevivência de tribos indígenas e comunidades rurais. No mínimo, repositórios de concepções alternativas
do humano, que nossa sociedade, em seu conjunto, belicosa e violenta, vem perdendo ou já perdeu.
É preciso tomar o ponto de vista do outro, do nativo, para apreender o modo de pensar deles, os seus saberes, o seu sistema de crenças e etc.

A cultura é o principal elemento de identificação de um povo, porém esta não é estática, está em constante transformação..   entendo caiçara como sendo a mescla étnico-cultural entre índios e colonizadores europeus, sobretudo os portugueses. Possuem um modo de vida característico, baseado na estreita relação com a natureza e seus recursos, onde sobressai a pequena agricultura de coivara (as roças de arroz, mandioca, milho, feijão, etc.); o extrativismo; a caça para alimentação própria; a pesca e o artesanato.  A venda dos excedentes da produção agrícola e dos produtos retirados da floresta (sobretudo palmito e caxeta) garantia a obtenção de dinheiro para aquisição dos produtos que o “sítio” não lhes proporcionavam: sal, remédios, vestimentas, sabão, etc. 

O TEMPO DE "DANTES"

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)

Os próprios moradores dividem a história de ocupação da Juréia em quatro fases distintas, marcadas pelos ciclos econômicos e aliadas a conjunturas políticas: o tempo dos antigos; o tempo da caixeta e do palmito; o tempo da NUCLEBRÁS e o tempo da ecologia. Muito comum na fala deles é o que eles chamam de “tempo de dantes”, que pode ser entendido como um passado recente ou como um passado mais longínquo. Essa periodização está presente na fala das pessoas mais velhas que acompanharam grande parte dessa história e são freqüentemente utilizadas nos trabalhos Sobre a EEJI de Monteiro (2002), Melo (2000), Sanches (1999), Ferreira (1990), Schmidt (1997) e Mahfoud (1996). Quando os entrevistados relembram o tempo de “dantes”, se lembram de como a Juréia era movimentada, de quantas famílias viviam lá, quantos amigos eles tinham em várias comunidades, como era bom se encontrar para dançar um fandango ou para uma folia de reis. 
“Que nem no Rio Comprido, lá onde é a Cachoeira do Guilherme, só que eu me lembro tinha mais de 10 famílias (só na Cachoeira); ai ali pra cima, tinha outro bairro tinha umas 3 ou 4 famílias e assim distância de 15/20 minutos de viagem sempre tinha. Tinha fazenda, essa fazenda que eu falo que explora casquinha, que era uma empresa, era pra cima do Guilherme tinha mais ou menos umas 20 famílias. Tinha Fazenda Morrote que era do Lage, tinha também outro tanto, umas 20 famílias. E o rio inteiro tinha gente. Um bairro que também tinha bastante gente, umas 40 famílias, era o Aguapeuzinho”. Ex-morador 
É também no tempo “de dantes” que afloram as melhores lembranças em relação às tradições das festas dos dias santos. São chamados de feriados ou RESPEITADO:
6 de janeiro (REIADO) 
10 de janeiro (São Gonçalo)
20 de janeiro (São Sebastião)
25 de março (Anunciação de Nossa Senhora)
29 de setembro (São Miguel – padroeiro do Centro Espírita)
Além dessas datas, também há festejos no Carnaval, no dia de São João (24 de junho) e na festa do Bom Jesus de Iguape, em 6 de agosto.
REIADO: acontece de 26 de dezembro a 6 de janeiro. Caso haja imprevistos, a data é alterada, podendo mesmo chegar até o dia de S. Sebastião. Mahfoud (1996) cita o período de 8 de dezembro a 20 de janeiro. É composto de 6 figuras: 3 homens  (o rei/o conde/o vassalo) que se vestem de camisa de manga comprida e 3 mulheres (a rainha e duas princesas). A rainha é sempre uma mulher casada e as princesas são 2 moças: uma mais nova e outra mais velha. É melhor que as figuras sejam de famílias diferentes, pois dá muita despesa com as vestimentas e todos os preparativos para a festa. O Reiado é acompanhado por músicos que tocam viola, cavaquinho, pandeiro, rabeca e triângulo. As músicas falam das passagens da vida de Jesus, e em casa que o reiado passa é cantado o TRELADO (música composta de 25 versos). Chegava a juntar mais de 50 pessoas, o cortejo ia de uma comunidade para outra  As pessoas abrem suas portas para recebem o Reiado e oferecem um café ou jantar. Um dos moradores da Cachoeira do Guilherme é “o guardião” do reiado da Juréia. Ele tem o costume de inventar versos homenageando as pessoas da casam por onde passa o cortejo. Antigamente todas as comunidades participavam. Os entrevistados c ontaram que até os moradores de Barra do Una participavam do reiado e iam até a Cachoeira do Guilherme, hoje em dia é mais restrito, devido as dificuldades de locomoção e os desentendimentos entre os moradores. CARNAVAL: o fandango é dançado também durante o carnaval. São 4 dias de fandango. A abertura é feita com o São Gonçalo. Às 23 horas da terça-feira de carnaval o fandango pára  as pessoas dançam uma hora de São Gonçalo como encerramento. Quando acaba os tocadores guardam suas violas até o Sábado de Aleluia às 9 horas da manhã. As pessoas dançam todas noites e descansam durante o dia. Os antigos guardavam 45 dias entre o carnaval e a páscoa. Nesse período ninguém comia carne. Só peixe. Na QUARTA-FEIRA DE TRÉGUA, na QUINTA-FEIRA MAIOR e na SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO,  não se varriam as casas. No período da quaresma, uma das entrevistadas se lembra que a avó varria a casa e deixava toda a sujeira num canto, não jogava fora, mas ela não sabe porque. As mulheres, principalmente as que se chamavam Maria, não penteavam os cabelos na Sexta-feira da Paixão. Os homens não cortavam a barba, o cabelo e as unhas durante os 45 dias da quaresma.
 25 DE MARÇO: é uma celebração religiosa restrita à comunidade espírita. Ela acontece infalivelmente todos os anos no Centro Espírita São Miguel Arcanjo, na comunidade da Cachoeira do Guilherme.  Nesse dia é comemorado a Anunciação de Nossa Senhora. Melo (2000) que assistiu a essa celebração a define como sendo um ritual de dimensões mágicas: A cerimônia religiosa é extensa e cansativa. Os penitentes rezam cem  Pai Nosso, cem Ave-Maria, cem  Glória ao Pai, cem vezes ajoelham e cem vezes beijam o chão. Um dos entrevistados contou que os Tavaranos sempre eram reconhecidos nas ruas das cidades devido ao seu “uniforme”, seu modo de vestir. Os homens usavam calça tipo social sem bolso atrás e camisa fechada até em cima, de meia manga ou manga comprida. As mulheres usavam vestido “estampadinho”, florido, com meia manga, franzido e cumprimento abaixo dos joelhos. Os cabelos eram presos em coques. Ainda hoje as senhoras se vestem dessa maneira. Quase todas as festas na Juréia são acompanhadas de FANDANGO. Exceção para o 25 de março e o período da quaresma. O fandango começa após o anoitecer e termina no amanhecer do outro dia. As pessoas andam horas, quilômetros para participar de um fandango. Um avisa o outro. Na abertura e no encerramento do fandango acontece a DANÇA DE SÃO GONÇALO. São Gonçalo é o padroeiro dos violeiros. Sempre que uma pessoa pedia alguma ajuda, alguma graça a ele, oferecia a primeira música de todas as tocadas no fandango. Assim surgiu a tradição da dança primeira ser de S. Gonçalo.  “São Gonçalo pra gente é o protetor dos violeiros. Então quando a gente as vezes ia faze uma roça, convidava todo mundo, já tava com despesa feita e tudo e omeçava a querer chove a gente fazia aquele pedido de que se não chovesse naquele dia pra trabalhar a primeira música seria...e sempre era mesmo, mas reforçava o pedido pra fazer a abertura com a música dele de São Gonçalo’. Ex-morador Há dois tipos de São Gonçalo: Mesa no centro da sala com os casais dançando em volta. Geralmente há uma imagem de São Gonçalo e velas acesas.  “O São Gonçalo tem lugares que coloca a mesa numa parte de um lado da sala e o pessoal vai cantando, vai até lá o homem e a mulher (o cavalheiro e a dama), aí vai lá, chega lá faz message que beija ai sai cada um de um lado chega aqui volta pra lá até terminar a música também. E tem outros, o mesmo São Gonçalo, que coloca a mesa no meio da casa assim e fica rodeando, dançando em volta com os cara cantando lá do lado e a gente fica em volta”. Ex-morador  Após a abertura do São Gonçalo, as pessoas dançavam o BATIDO. A marcação é feita por um ou dois homens. Para dançar o batido precisa ter um bom chão de madeira. Todos dançam o batido, mas só os homens fazem a marcação. Outros tipos de fandango são dançados como o recortado, balanço, passadinho, apara limão, sirindi, engenho, tirana, chamarrita, anu. No dia seguinte entre 6 e 7 horas da manhã dá-se o encerramento do fandango também com o São Gonçalo. Uma peculiaridade é o fandango dançado na Cachoeira do Guilherme. Contam os moradores antigos que antigamente se dançava o baile e o fandango, mas acabava dando muita briga por causa de ciúmes o que deixava os seguidores da religião Tavarana aborrecidos. Segundo eles contam, seu Sátiro teria resolvido esse impasse permitindo que somente fosse dançado na comunidade o ‘‘passadinho”. Nesse tipo de fandango não há contato corporal entre homens e mulheres, o que diminui os conflitos e faz com que de qualquer maneira os jovens possam se divertir sem precisar sair da comunidade.
“Tanto o espírita quanto o católico dançava o baile. Todo mundo dançava junto e tinha uma mistura de espiritismo  e católico. Chegou uma época que tava havendo muita confusão na questão do fandango, do baile ...o pessoal que era espírita. Porque ia dança agarrado, tinha muita cena de ciúme, e acabavam fazendo confusão no baile e brigavam. Aí a comunidade Tavarana, que é uma família Tavares, que chamam, que tem uma religião espírita misturada com catolicismo, eles acharam por bem que então dançassem só o passadinho, o fandango que tem o passadinho, que é essa dança que você não dança agarrado. Que tem o passadinho, que tem o sirindi, que tem o São Gonçalo, que tem o engenho, porque aí evitava que você pegasse uma dança e saísse dançando com ela de mão pegada, então ai não tinha conflito. Por isso a comunidade tavarana dança só o passadinho. Eu gosto dos dois (baile e passadinho). Mais a gente respeita essa comunidade que dança o passadinho e até quando o pessoal vem dançá baile a gente fala...essa comunidade só dança o passadinho”. Ex-morador
O acompanhamento do passadinho é feito com modas de viola de autoria dos próprios moradores da Cachoeira. A dança se prolonga do início da noite até o amanhecer do dia seguinte. As pessoas passam a noite toda dançando, conversando com  os amigos entre uma dança e a outra bebem café, suco ou água. Ninguém consome bebida alcoólica na comunidade, mesmo aqueles que gostam, respeitam o Guilherme e se abstêm dela. 
O passadinho inicia-se com a feitura de um círculo:
“A música se inicia, os que querem dançar se colocam no centro da sala formando um círculo, intercalando homem e mulher. Na roda, todos se entreolham. É um momento especial, o de escolher, de se colocar ao lado de outra pessoa. Até que o círculo não se complete com um bom número de pares, outras pessoas, que estão à volta observando, são convidadas a entrar. Em seguida os homens se voltam à esquerda e as mulheres à direita, e vão em frente com passos curtos, ‘arrasta-pé’, bem no ritmo da viola, desviando uma vez à direita, outra vez à esquerda, de tal forma a entrelaçar o fluxo dos homens e das mulheres”. (Mahfoud, 1996:34)
Certa vez em que participei de um passadinho no Guilherme, os mais velhos estavam comentado indignados no dia seguinte, que havia pessoas de chapéu ou de boné dançando (geralmente jovens) e que isso estava errado, era um desrespeito muito grande. Muitas pessoas falaram em suas entrevistas que às vezes fazem um fandango, mas só de 2 ou 3 horas e que isso não tem graça. Nem se animam a ir. Fandango bom tem que ir até o dia seguinte, como falou uma senhora ex-moradora da Cachoeira do Guilherme:
O fandango no Guilherme é dançado na casa maior, que tem mais espaço para acomodar as pessoas. A tradição de se iniciar o fandango e terminar com a dança de São Gonçalo, também é praticada na Cachoeira do Guilherme. 

A VIDA NO SÍTIO
O sítio é a unidade familiar e de trabalho dos caiçaras da Juréia. É nesse espaço que se constroem a base de sustentação do núcleo familiar, do núcleo produtivo, da formação religiosa e cultural dos membros da família, a transmissão das tradições. Os quintais dos sítios são uma mescla de jardim, de pomar, de horta, de criadouro de aves e de capoeira rala. A roça fica mais distante da casa e chega até a ficar a quilômetros da casa dependendo do rodízio de solo ou do local onde o Instituto Florestal concedeu autorização para o plantio. Para eles não tinha muita importância ter a posse documental da terra, mas sim ter o sentimento de perpetuação do modo de vida de seus pais, seus avós, seus bisavós. Se saber dono se seu tempo, de sua roça. De saber que o máximo que podia lhe acontecer quando adentravam o mato para caçar ou para extrair palmito e caxeta era encontrar uma cobra, um porco do mato.  A atenção e o medo refletiam os perigos da própria mata e não pelo aparecimento de um fiscal, um policial, um funcionário do IF ou do IBAMA. 
O modo de vida dos caiçaras tem a característica das “complemantariedades”, ou seja, não há uma atividade que por si só garanta o sustento da família. No entanto, a roça é de importância central para eles. Como a roça exige uma dedicação por etapas, as outras atividades são realizadas entre os períodos de menor dedicação a ela. Dentro da roça o cultivo principal é o da mandioca, seguido pelo arroz. O calendário caiçara é extremamente harmônico. Todas as atividades se encaixam perfeitamente. O preparo do solo começa em julho/agosto, motivo pelo qual os moradores precisam conseguir autorização do IF até junho. Porém em alguns anos isso não aconteceu, atrasando todo o plantio, quando não o inviabilizou. “Lá nois começava a trabalhar em roça cedo, outubro/novembro. Mês de outubro nós já tava com as roça pronta, pra vim pra cá, pra trabalha na manjuba. Naquela época era bom, dava um bom dinheiro, né. Hoje já ta ruim porque, sei lá, ta se acabando de certo. Faz uns trinta anos. Mas agora já diminuiu a manjuba. A gente ganha muito pouco, tem época, olha essa semana, pouquinha coisa que nós fizemô de manjuba, porque a água ta ruim, né. Até outubro a gente plantava a roça de arroz, milho e vinha embora. Quando era em 15 de março nois terminava a pescaria, daí já cuidava de volta, de colher o arroz, milho. Nois começa a colher arroz em abril, maio e até mês de junho nós colhia arroz. Todo esse tempo. Nos plantava bastante, eu colhia 250/300 sacos de arroz. E aí trazia pra vender aqui. Era assim que a gente sobrevivia”. Morador 
O plantio pode ser solitário (uma só espécie) ou em consórcio como relatado por um ex-morador da Juréia:
“A gente fazia roça de mandioca, então nas beirada a gente plantava cana, plantava banana, plantava... em espaços largos, não como se fosse só aquela planta. A mandioca plantava no espaço normal e aí em volta plantava a cana, a bananeira, no meio da roça plantava o cará, a batata doce, o milho com grandes espaços também. Não produzia muito, mas sempre dava prá ajudá. E é claro, quando fazia a roça só pra milho aí o espaço era o espaço certo do milho, quando era só da mandioca também, a única coisa que a gente não plantava assim muito, ele consegue saí, mas só que na colheita tem muito prejuízo é o feijão. Se plantá ele junto com outra planta, ele se enrola e na hora da colheita estoura tudo e fica metade lá. Dá muito prejuízo. Mas a mandioca, o milho, a cana, a banana, com um espaço elevado dá prá plantá. A abóbora, a melancia, tudo numa roça só. Agora, a mandioca a gente planta ela prá começa a tirá  a mandioca é um ano, então dali de um ano em diante a gente já não capinava muito mais, ia só tirando o mato. Quando a gente terminava de tirar aquela roça, o começo lá já tava grande, aí deixava 2, 3 anos ou 4 anos e ia fazê outra. Então quando terminava um lugar, o outro de cá já tava bom de começa a roçá outra vez, e fazendo assim. O arroz mesma coisa, o milho mesma coisa”. 
A queima da floresta ou da capoeira em regeneração é essencial para garantir a produtividade do solo nesse tipo de agricultura praticada pelos caiçaras. A queima aumenta os teores de cálcio e magnésio e diminui os de alumínio, elevando a fertilidade do solo. 
FORMAS DE SOLIDARIEDADE
Extremamente importante na cultura caiçara são as formas de cooperação como o mutirão e o ajutório. Infelizmente devido às proibições da legislação ambiental e a escassez de moradores, é raramente praticada. Nos dias 8 e 9 de novembro de 2003 aconteceu um mutirão no Morro do Grajaúna. Foram feitas três roças, contando com a participação de aproximadamente 70 pessoas. Segundo os participantes foi muito gratificante voltar a fazer um mutirão. À noite teve fandango e dançaram até o amanhecer do outro dia. Apesar dos moradores sempre comentar que gostariam de retomar os mutirões com freqüência, isso ainda não ocorreu.
MUTIRÃO: As pessoas são convidadas através de recados ou bilhetes para fazer um determinado serviço e elas têm que levar as ferramentas pois, quem estiver sem ferramenta não participa. As mulheres ajudam no preparo da comida e em serviços leves. O mutirão é sempre convocado para uma sexta-feira. No início da noite os participantes do mutirão comemoram o dia de trabalho num fandango oferecido pelo dono da casa. O fandango acontece de sexta para sábado. Quando amanhece o dia as pessoas vão embora. O sábado é o dia santo para os Tavaranos, não é dia de trabalho, mas pode dançar. Só não pode mesmo é trabalhar.
AJUTÓRIO: Pode ser para fazer uma roça, reformar uma casa ou outro serviço qualquer. A pessoa que precisa de ajuda chama quatro ou cinco pessoas para o trabalho de um dia. As refeições são por conta do dono da casa. Quando as pessoas que foram ajudar, precisarem também de ajuda, é a vez da pessoa que foi ajudada retribuir trabalhando no ajutório daqueles que já lhe ajudaram. Se ela não puder ir, não tem problema, eles continuam amigos, não guardam mágoas.
Antes do pessoal da Nuclebrás e do Meio Ambiente, como eles dizem, o plantio da roça era para atender as necessidades da família, e o excedente era vendido em Iguape ou Peruíbe, com isso as famílias conseguiam o dinheiro necessário para as necessidades que o sítio não lhes fornecia.  Outra atividade que precisa do envolvimento de muitas pessoas e o fabrico da farinha. Geralmente as famílias nucleares possuem um trafico de farinha (aparelhagem utilizada no processo de fabrico da farinha de mandioca) e trabalham nele em conjunto com a família estendida que é formada por filhos, genros, noras e netos.

PALMITO E CAXETA
Afora o excedente da roça, a extração de palmito e caxeta contribuíam também para a renda da família. Os caiçaras não cansam de dizer que “todo mundo tirava e não se acabava”.  Havia seis indústrias de palmito na cidade (por volta de 30 anos atrás): Peniche, Zé Matias, Caiçara, Palmisur, Abílio e Totico Rocha. Eles deixavam o palmito retirado na beira do rio e os compradores passavam de barco recolhendo. Havia espessura certa para a fábrica comprar o palmito, por conta disso, ninguém tirava palmito fino. À fábrica só interessava comprava se a espessura fosse tal que permitisse acondicionar até 4 pedaços numa lata.
Espessuras menores a fábrica não comprava. Os palmiteiros também não cortavam o palmito com a fruta. Os fabricantes de palmito arrendavam “o mato” dos proprietários e os moradores trabalham cortando o palmito para eles.  Para a caixeta também havia medida certa: nunca menos de 12 cm de diâmetro. As fábricas também recolhiam na beira do rio. As fábricas de caixeta citadas foram: Maneco Rocha, Ner Carneiro, Xavier, Salvador e Johann Faber.
“Caxeta também dava lucro, a mesma coisa. Meu marido trabalhava com palmito e caxeta. Assim quando, por exemplo, tinha uma época que tirava caxeta, a serraria pedia uns 200 m de caxeta, aí ele ia prô mato e cortava 200 m de caxeta, quando dava a chuva jogava no riozinho e tirava pelo rio e levava até o rio largo, o Rio das Pedras. Tem um processo, é muito difícil...não é assim. Corta a caxeta no mato lá em cima aí joga tudo no riozinho e vem trazendo assim, porque na água é mais fácil, até chegar no rio largo, ponha no barco e levava...aí quando não tinha pedido de caxeta ele tirava palmito, tirava 3, 4 carga de palmito, vendia. Carga é pacote, do tamanho de pode coloca nas costas prá carregá, aí vendia e comprava arroz, feijão, as coisas mais que precisava”. Ex-moradora 
A CAÇA
A caça apesar de extremamente importante na cultura caiçara, não era comercializada. Seu uso está ligado à dieta alimentar e a produção de remédios caseiros. Quando perguntado se havia leis entre eles de controle da caça, um dos entrevistados respondeu:  
 “A gente não tinha época certa, só que a gente normalmente (às vezes acontecia na época de reprodução de pegar uma fêmea de bicho, mas era por um descuido). A gente sempre procurava não fazer isso. Que nem o tatu que é um bicho fácil de saber quando ele ta criando, que ele anda com os filhotinhos, então a gente não matava, mesmo que visse não matava. A paca também quando caçava dava pra conhecer o bicho quando ela tava cheia, também não matava. O macaco era muito difícil. Às vezes quando a gente ia caçar e já tava indo embora e não conseguia nada, pegava pra não chegar em casa com as mãos vazia, pegava. Quando conseguia, porque é muito rápido e quando eles não pegavam e mostravam pra turma o filhotinho das costas”. Ex-morador
Uma reclamação geral dos moradores é quanto ao desaparecimento da caça. Eles acham muito estranho que apesar da proibição de caça, os animais sumiram. Não têm aparecido nem nas roças. 
“Pior de tudo acho que tem...sei lá ... um processo ...sei lá, uma coisa que onde tem o povo tem as coisa, onde não tem some tudo. Olha, cotia tinha de mais. Vc deixava assim um resto de comida na panela, elas vinha comer que nem cachorro. Cotia, tatu tinha de mais.  Os tatu a gente corria atrás daqueles tatu, pegava os filhotinho bem pequeninho, levava prá casa, fazia um cercadinho, mamãe brigava – “solta o bichinho no mato” – Não mãe é tão bonitinho” Aí deixava lá , aí um dia eles cresciam mais um pouquinho, cavavam assim e iam embora. E hoje você anda lá não vê nem uma pegada do bicho no mato. Olha eu andei agora, semana passada eu fui prá lá com meu irmão, fomo anda um pouco no mato. Andemos, andemo lá pelo sítio Brasília onde a gente morava é só mato, mato, num tem nem um pé de planta aqueles quintal lá, é tudo mato fechado, aquelas pedra, que a gente brincava lá de boneca, aquelas toca, tudo fechado, tudo mato virgem, você não vê uma pegada, de bicho! Pode anda dormindo no meio do mato lá, não tem onça não tem nada lá. Não sei porque naquele tempo ainda, o pessoal matava prá comê, e era muita gente que morava lá. Só no sítio Brasília morava 8 família. Tudo assim irmão da minha mãe, irmã, meu tio Valter, meu tio Casemiro, tia Nadir, morava tudo junto. Cada um tinha a sua casinha. Morava muita gente. E tudo mundo matava caça, não estragava matava assim prá comê, prá sobrevive. Tinha bicho demais. Cateto, porco comia tuda a roça de mandioca, e hoje pode planta lá que não vem nada. Não sei porque será isso. Ex-moradora
E a reclamação não se restringe a caça, os peixes e outros frutos do mar também estão mais raros na região segundo os moradores:
Até na praia também tinha muito pegoava, marisco, no Rio Verde tinha muito, hoje você não acha um. Que foi que sumiram. “ah, porque o pessoal comia tudo” e como é que quando o pessoal morava lá tinha, todo mundo comia e não acabava, porque que hoje acabou? Você pode andar na praia, aquela praia enorme, deserta sem ninguém sem nada. Meu pai faz a rocinha lá era prá não deixar nem ter roça, porque o bicho do tanto do tempo que não mata esses bichos era pra tá tudo ali na roça prá comer tudo.
Vai lá na roça do meu pai, não vem nada, só de vez em quando passa uma anta no meio dela, mas é muito difícil”. Ex-moradora 
A caça era também muito usada para a fabricação de remédios:
“Tinha banha de lagarto que servia prá mordida de cobra, de aranha. Usava banha do tamanduá prá reumatismo, usava banha de tatu-guaçu, também era bom prá reumatismo, banha de macuco prá colocar no ouvido, prá dor de ouvido”, 
E haviam preparados para auxiliar as mulheres na hora do parto. Quando estava próximo da hora de uma mulher da comunidade dar à luz, era preparada banha de raposa preta ou de galinha preta. Derretia essa banha. Quando a mulher começava a sentir as dores, ela era lavada da cintura para baixo com sabão de pedra. A banha era aquecida no braseiro. Untava-se a mulher com essa banha. Isso ajudava no parto. Usavam também chá de alecrim para aumentar a dilatação. Após o parto a mulher ficava oito dias em repouso. Durante esse período só comia galinha cozida e pirão. O bebê também só saía do quarto após 8 dias. Era quando ele tomava seu primeiro banho, numa água com alecrim.
“Banha de raposa...já que a gente tá conversando eu posso contá: banha de raposa prá quem ia ter o parto, então usava aquela banha pra...tirava porque ela tem uma banha, parece banha de porco, tirava derretia e depois guardava num vidro... Era a raposa que tem uma bolsa (gambá)” Ex-moradora

O USO MEDICINAL DAS ERVAS
A população da Juréia sempre se valeu do poder curativo de plantas medicinais para a cura de seus males. As ervas, associadas aos “curandeiros” como eram chamados os médiuns que realizavam até mesmo curas milagrosas. 
“Aquilo que eu tava falando, do meu vô passou prá ele (seu Sátiro), né. Eu sou neta de Maneco Plácido. A gente nasceu, criou-se, eu tive meus dois filhos lá e eu não precisei de fazer pré-natal, eu não precisei de ir no hospital pra ganhar meus filhos, lá mesmo a gente graças a Deus...tudo bem até hoje. Então a gente ficava doente, as crianças ficavam, a gente ia com eles consultava, ele ensinava os remédios de erva, a gente chegava em casa, fazia, aquilo levantava a gente, a mesma coisa que você vai ali no posto de saúde, toma uma injeção e tá bom. Aí depois meu avô passou para o velho Sátiro, aconteceu a mesma coisa, ele só curava com remédio de erva, que era difícil você ir lá nele e ele passá um remédio que fosse da farmácia. E os próprios benzimentos dele, portanto que o benzimento não era tudo que ele podia declarar pra nóis o que que ele tava fazendo, ficou com ele, né. Porque tem coisa que ele não podia explicar pra nóis. A receita sim, ele fazia a receitinha dele, a gente levava, porque a cabeça da gente não ia guarda ervas por ervas...”
AS LENDAS 
Durante uma mesa redonda com ex-moradores da Juréia, foi perguntado a um dos participantes como era a lenda do Morro do Pogoçá, ao que ele respondeu: 
-- “eu não sei se eu tô certo, porque o que a gente conta que viu, acho que não é lenda, porque a gente viu. Lenda é o que a gente sabe que conta de outro.”
“O do pogoçá é uma luz, tipo uma tocha de fogo, que ela sai a noite do Pogoçá, e vai pra Queimada lá. Quando a gente vê ela passar é que nem um relâmpago, dependendo do lugar que a gente tá, dá pra ver aquela tocha e daí quando ela chega na região determinada ela dá um estouro que nem um trovão. Eu já vi várias vezes já. Inclusive quando ela passa, a última vez que eu vi, a gente tava com o rádio ligado e o rádio...cortô na hora. Faz mais ou menos uns 30 anos (meu filho era bem pequenininho). Inclusive os mais velho, eles explicam, diz que é uma “mãe de ouro”. Agora afinal do que é isso eu não sei. Eles dizem que é um encantamento que sai d’uma serra e vai pra outra. Ela sai do Pogoçá, vai pras Queimada, ela vem das Queimada vai pros Itatins. Deve ser tipo um encantamento. Onde tem um minério muito forte, então ele com a evaporação diz que ele sai. É uma luz muito forte”

AS FAZENDAS DA JURÉIA
Os moradores mais antigos chegaram a trabalhar nas fazendas que haviam espalhadas pela Juréia. Eram fazendas de banana, de caxeta e de sambaquis. Um ex-morador trabalhou nessas fazendas de sambaquis quando ainda muito jovem. Era a forma de ajudar os pais a complementar a renda:
“Trabalhei lá no Mariano, pra cima da Cachoeira do Guilherme. Eles extraiam as casquinha, tinha um galpão grande com motores, eles moíam tuda aquelas casquinhas e transportava, dizia que era pra adubo, né, em barco pra Santos. O sambaqui, que a gente na nossa idioma chama casqueira. O sambaqui a gente diz pra acompanhá, mas na nossa língua é casqueira. É conchinha do mar, concha de ostra, aquela concha de berbigão que a gente chama, e faz aqueles montes lá...Porque que existia a casqueira?
Segundo os mais velhos da gente diziam, né é que aquilo ali é do tempo do dilúvio. A água subiu, fazia aquele roda-moinho e juntou aquilo ali e ficou. E segundo estudos, que também já conversei com gente que estuda e eles diziam que era os índios que carregavam aquilo do mar, se alimentavam com a carne da casquinha e jogavam aquilo ali como fosse hoje um lixão. Até que nessa conta eu conversei com uma moça aí e nos ficamo aí em dúvida se quem estava certo era eu ou era ela, porque ela falou que era o índio, mas pelo volume de morrotes da casquinha que tinha, achava que era muita coisa pra ser índio comer tudo aquilo. A gente encontrava esqueleto junto, a gente tirava e deixava tudo de lado. Da casquinha que era peneirada saia uma substância, uma terra preta  e aí a gente jogava, cobria aqueles ossos com aquilo ali. Achava mais esqueleto de gente e de peixe. Os morrotes chegavam a +/- 30 metros de altura, porque de diâmetro era muito mais, uns 200m2 . Aquele que eu trabalhava nela, eram 3 morrotes. A gente falava 1°, 2° e 3°. Inclusive um morrote dele, ficou mais ou menos uma terça parte dele que não foi mexido. Existe muito sambaqui ainda na região do Rio Comprido. A propriedade era de um pessoal de Santos. Depois eles foram proibido de extrair, ai...A gente trabalhava de diarista. Lá onde nós extraia dava uma base de 500/600 sacos por dia, dependendo do cara que estava no moedor. Na época não chegava a usar para a construção de casa, porque tinha que queimar e não tinha preparado para queimar. O berbigão é um marisco que dá no mar. É uma conchinha  que ela acosta na praia, mas dificilmente acha um inteiro, só acosta a conchinha, é marisco que só tem no alto mar. É difícil comer porque ela só vem mortinha, só a conchinha”.
Parece que a diferença entre as dificuldades do passado e as de hoje é ponderada pelos moradores pela tranqüilidade que havia antes, pela alegria, pelo prazer de ser capaz de prover sua família das suas necessidades, de lidar com a mata e com a terra sem o medo de estar sendo vigiado e do inconformismo do porque tudo ficou tão diferente, se há várias gerações seus antepassados viviam da mesma forma que eles vivem hoje e nunca que “se acabou” nem com a terra, nem com os bichos, nem com a mata.

Entrevista com Mestre Raimundo

Fizemos uma entrevista com algumas perguntas, sobre canoas, a cultura, as aventuras e a vida do Mestre Raimundo.
Nome: Raimundo Rafael Filho                                              Idade: 53 anos
Caiçara, nascido em Ilhabela - SP
Grupo: 1ª) Que tipo de canoa é essa que o senhor esta desenvolvendo?
Mestre: Canoa Caiçara

Grupo: 2ª) Qual o nome da árvore utilizada?
Mestre: O nome da árvore é Guapuruvu, porque ela é frágil e oca por dentro, cai com o vento e mais fácil de ser aproveitada.

Grupo: 3ª)  De onde o senhor tira sua inspiração. É baseada em que?
Mestre: É a mão livre, já esta na cabeça

Grupo: 4ª) Com quem você aprendeu a arte do canoiero?
Mestre: Com o meu pai.

Grupo: 5ª) É uma tradição de família?
Mestre: Começei aos 40 anos, com meu pai e agora estou passando a arte para meu filho Jonatas Silva Rafael, de 16 anos, ele já faz canoas pequenas para artesanato.

Grupo: 6ª) Qual o significado da canoa pro senhor?
Mestre: Significa muita coisa, meio de sobrevivencia, como meio de transporte e pesca.

Grupo: 7ª) Tem alguma aventura que com a canoa que o senhor possa nos contar?
Mestre: Fazíamos a canoa no meio da mata, e depois de pronta, puxavámos em umas 15 pessoas, até a casa mais próxima com uma corda.

Grupo: 8ª) Que dia o senhor começou essa canoa, quantas horas o senhor trabalha por dia, e a previsão do termino?
Mestre: Comecei a mais ou menos um mês, trabalho por hora e 2 horas por dia, somente segunda quarta e sexta, leva-se em média mais ou 15 dias se trabalhar sem parar.

Grupo: 9ª) Qual o preço em média de uma canoa como essa?
Mestre: Vária do tamanho, de 1.000 até 4.000 R$

Grupo: 10ª) Quais são as etapas da fabricação de uma canoa?
Mestre: Primeiro ela é atorada, perdendo assim 80% da madeira, depois arraza o tronco, em seguida é feito o desbojo lateral, cava-se e tosa-se para achar o meio com a linha para igualar os lados, para finalizar vira-se e arrasa o fundo, seguido do dergado que alinha o fundo, poupa e proa, conclue-se com a limpeza, aplana e pinta.

Comentários do Mestre: "A mandeira dessa canoa foi doada pela Defesa Civíl de São Sebastião."
"A cor da canoa será verde e branca, simbolizando a cor de São Sebastião."
"Já carreguei uma canoa de 30 kg sozinho nas costas."
"Com a semente do Guapuruvu se faz artezanato do tipo olho de cabra."
"Dependendo do cuidado, a canoa pode durar até 50 anos, sempre realizando reformas."

O DESABAFO

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)

A grande parte das entrevistas começam com um desabafo dos entrevistados sobre a situação de vida atual e o passado vivido no sítio.  Algumas pessoas carregaram sua fala com mais raiva,  outras com mais tristeza, algumas ainda esperançosas de dias melhores.  “Recramo, ô... recramo porque lá, lá a gente tinha a vida da gente, sabe, agora aqui é tudo diferente, pessoal que saí de lá, eu penso assim, pessoa que sai de lá vive como um passarinho na gaiola, peixe fora d’água... esse tipo assim... pessoa que sai de lá e diz que se acostuma noutro lugar tá mentindo, faz que se acostuma assim por, pra se mostrá, mas por dentro eu acho que não... Eu memo não acostumo... Aqui é muito diferente... muda muito a vida, o pessoal vindo de lá... é diferente, infelizmente eu memo não posso ir prá lá por causa das criança né, por causa do estudo, eles não acostuma lá mais mas eu mesmo não me acostumo prá cá de jeito nenhum...”  Ex-moradora 
É comum nos depoimentos a fala sobre a necessidade de deixar a Juréia por falta de escola para os filhos. E é comum também o lamento de que dificilmente poderão retornar, pois os filhos não querem. Alguns deles nem conhecem a Juréia e não querem conhecer.  “Era muito bom sabe porque? Porque a gente vivia tranqüilo, num tinha problema, nos trabalhava, trabalhava em serviço de roça, em qualquer serviço. Não tinha perseguição, não tinha problema nenhum, e hoje depois que começou a ecologia, essa Estação lá, ficou complicado”. Morador
Na fala deste morador aparece um termo que irá ser recorrente em tantos outros depoimentos: a perda da tranqüilidade depois da criação da EEJI. “antes que chegasse a EE aqui era tudo bom. Todo mundo trabalhava, todo mundo vivia, fala a verdade, todo mundo...quem queria vivê vivia de plantá arroz, plantá mandioca, cotava seu palmito pra vivê, usa a tinta, matava sua caça pra come, não pra vendê não, pra come, pescava em qualquer parte, era uma vida solto do povo, solto, tinha embarcação aí, nesse Rio das Pedras, 3,4 embarcação todo dia aí, hoje em dia não tem mais nada porque a EE acabou com tudo, com tudo. Acabou mesmo, pode dizer que não tem mais nada por causa disso. Eu conheço isso aqui. Há 30 anos pra cá que começou isso aí direto, desmontou tudo mundo, acabou com tudo mundo, matou tudo o pessoal que tinha aqui. Alguém que morreu, morreu, quem não morreu saiu, porque pra morrer de fome ninguém vai ficar num lugar desse aqui, né. Tamo ficando nós porque nós somo empregado, se não fosse nosso emprego já tinha morrido de fome. Não dá pra trabalha, faze nada”. Morador . Um dos moradores queixou-se dizendo que a situação está tão complicada que é difícil até para morrer na Juréia:
"Hoje em dia vou falar prá senhora, vai ficar gravado aí, mas vou falar a verdade, mas aqui tá difícil até prá morrer. Prá tirar um defunto daqui é preciso cortá os quarto dele. Porque não tem mais ninguém.  Se uma pessoa morre num lugar desses aí, uma pessoa sozinha fica com ele à noite interia porque não tem jeito, num tem prá onde correr, porque não tem recurso. A gente tem medo de correr prá um vizinho, fica com o morto lá. Tamo nessa situação nesse lugar!"

MEMÓRIAS DO PASSADO E PERSPECTIVAS DO FUTURO NA ESTAÇÃO ECOLÓGICA JURÉIRA-ITATINS

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)
Para melhor compreendermos o contexto sócio-cultural dos caiçaras é necessário também resgatar os elementos culturais que norteiam essa cultura e o modo de vida a ela associado. Eles irão nos contar fragmentos de sua memória sobre o passado vivido “no sítio”, do seu presente sofrido e de um futuro incerto. Como muito bem alertado por Toledo (1988), não há como resguardar a herança natural de um país, sem que seja dado  valor equivalente para a herança cultural:
A Cultura e o Saber Tradicional
A expressão cultura rústica foi utilizada por Antonio Cândido para diferenciá-la de cultural rural, em “Os parceiros do Rio Bonito”. Para ele o termo rural se referia a localização e sua pretensão era exprimir um tipo social e cultural. Seu conceito de rústico poder-se-ia ser traduzido por caboclo, quanto ao tipo racial brasileiro resultado da mistura entre branco e índio, que em São Paulo forma a maioria da população tradicional. Entretanto, Cândido elegeu o termo caipira por exprimir “um modo de ser e um tipo de vida”. O modo de vida do caipira e do caiçara vai se formando nos períodos de crise entre um ciclo econômico e outro. Havia, nos dois primeiros séculos de colonização, uma enorme população de pobres que dispunham como único recurso econômico das terras virgens e sem valor para dela tirarem seu sustento. Segundo Ribeiro (1998), se instala dessa forma “uma economia natural de subsistência, dado que sua produção não podia ser comercializada senão em limites mínimos”. É nesse momento histórico e econômico que se propaga a agricultura itinerante, a derrubada e queimada de áreas florestadas para o plantio das roças anuais e sua complementação com a caça, a pesca, a coleta de frutos  e raízes. Outra semelhança entre a cultura caipira e a cultura caiçara está na organização dos bairros rurais.
As formas intermitentes de convívio citadas no trecho acima são as festas, os cultos, os mutirões, os ajutórios, comuns em todas as comunidades caiçaras do Rio de Janeiro ao Paraná, alterando-se apenas as formas de festa (baile, bailado, fandango); (com ou sem bebida alcoólica) e os termos regionais (mutirão, muchirão, demão), etc.

A determinação do ritmo de trabalho é uma das premissas também encontradas na cultura caiçara e um dos lamentos mais freqüentes entre aqueles que deixaram a Juréia. Agora como assalariados ou em “subempregados”, eles não detêm mais a propriedade do ritmo do seu trabalho.  A necessidade de coordenar o ritmo do trabalho era mal compreendido pelas pessoas, que passaram a “rotular” o caipira como “limitado de aspirações, que o faz parecer desambicioso e imprevidente, ocioso e vadio” . Provavelmente este modo de enxergar o caipira, tenha sido a origem do significado pejorativo dado ao caiçara. 
As culturas caipiras, caiçaras, ribeirinhas, caboclas, camponesas, etc são sub-culturas da cultura ocidental, sendo que o sufixo “sub” indica ramos, fragmentos e não algo inferior ou menos importante. A cultura caiçara é dinâmica, ela está em transformação, sobretudo porque o espaço onde ela se constrói também está se transformando como muito bem apontado por Calvente (1993). Não é possível procurar hoje como cultura caiçara a forma de ver o mundo de 20 ou 30 anos atrás, pois a transformação do espaço exigiu a transformação da cultura.
Entretanto, conhecer como era essa cultura no passado, nós dá uma idéia mais precisa “das perdas” que ela sofreu no processo de crescimento econômico desenfreado e nas sansões ambientais cada vez mais restritivas.  Outro ponto importante a ser refletido é que o intercâmbio entre culturas é saudável. A cultura caiçara não precisa se isolar para se manter.  Nós os ocidentais é que fazemos parte de uma cultura isolada. Nossa cultura é aberta no sentido de absorver e fechada no sentido de aceitar as diferenças. A exclusão parte da cultura ocidental e não das demais culturas. 
Memórias de caiçaras
No livro Memória de Ilhabela: faces ocultas, vozes no ar, Merlo (2000), faz uma reconstituição das muitas faces de Ilhabela/SP através das lembranças dos caiçaras das comunidades mais isoladas da ilha. São lembranças que falam das transformações ocorridas devido ao crescimento do mercado imobiliário no litoral norte de São Paulo, seguidos pelo aumento descontrolado do turismo e a implantação das áreas ambientais protegidas. Sob diversos aspectos da vida cotidiana trás para o presente as vozes do passado. 
Em um dos depoimentos, pode-se identificar na fala do nativo da Ilhabela, a preocupação com a continuidade das tradições e festas como símbolo de resistência à cultura e a permanência em seu território: 
“Faz uns 10 anos que canto a novena (...) Eu chamo sempre a molecada mas ninguém quer ir. Estou preparando a Verene pra ver se ela fica lá, se ela reza alguma vez. Mas tem gente que reza muito bem lá na igreja (...). Essa tradição não vai acabar, enquanto eu viver não vai acabar. Umas das poucas coisas que resta aqui nesse pedacinho pra cá. De Indaiatuba pra cá é única. Só não acabou no São Pedro e na Praia Grande, e a Congada na Ilhabela. Não sei se no Perequê ainda tem São João, e se a gente não abrir os olhos acaba tudo. Olha uma coisa eu vou te falar, se acabar a Festa de S anta Verônica aqui no Bonete vai ser um transtorno, assim como aconteceu em Indaiatuba. Lá acabaram com a festa e desabou tudo. O pessoal foi saindo, outros morreram e daí pra frente, só aquela tristeza. Só sei que, se acabar, Deus me livre; mas tenho fé em Deus que não acaba. A gente não deixa acabar” (puxador de ladainha – Novena de Santa Verônica, 54 anos – Merlo, 000:111/112)
Mansano (1998) vai discutir as transformações da comunidade do bairro do Cambury (litoral norte de São Paulo) em três etapas distintas: o “Tempo dos antigo”, o “Tempo de transição” e o “Tempo de hoje”. As histórias de violência, de marginalização e da opressão sofrida pelos caiçaras de Cambury, são resgatadas através da memória coletiva do grupo. Também é possível falarmos em tempo futuro, onde a comunidade (re)inventa seu modo de viver à luz dos problemas do presente e do passado perdido. Segundo a autora “passado e futuro são reconstruídos pois, tendo como patamar o presente de luta pelo direito à terra e sobrevivência dos símbolos e tradições, elaborados no cerne de sua relação com o meio onde vivem (...) O caiçara de Cambury tenta resistir à expropriação definitiva e se mantêm no lugar. Mas para isso, incorpora novas concepções, percepções, referenciais e valores à sua visão de mundo, ao mesmo tempo que reiventa seu modo de vida”.
Quando os moradores de Cambury foram chamados a participar das reuniões para a elaboração do Plano de Gestão e Plano de Manejo para o Núcleo Picinguaba do PE Serra do Mar, isso de alguma maneira motivou-os a promover novas eleições na Associação dos Moradores de Cambury, que há muito tempo não aconteciam. Deu-se então um fato emblemático da valorização dos saberes locais: foi eleito um caiçara de 71 anos como presidente da Associação. Essa eleição pode ser considerada uma forma de resgatar o passado. Um símbolo de luta pelas suas tradições, seu lugar, seus direitos. 
Seguindo os exemplos de desestruturação de comunidades caiçaras, vamos encontrar no Saco do Mamanguá em Paraty/RJ, uma denominação muito semelhante à de Cambury no dimensionamento dos tempos passado e presente. Os caiçaras de Mamanguá falam em “Tempo da fartura” (até a década de 40) onde havia “abundância de tudo, nada lhes faltava”. O tempo da fartura também foi um tempo onde as pessoas viviam em harmonia, não havia diferença de crença religiosa (eram todos católicos) e nem turistas. (Diegues e Nogara, 1999)
Na Juréia tudo é muito semelhante às demais comunidades caiçaras, mas ao mesmo tempo, há muitas particularidades. Muitas das características apontadas na literatura como sendo da cultura caiçara não são encontradas, ao menos de forma significativa na Juréia (como o abandono aos cultos e festas religiosas), em razão do seu histórico religioso e creio também, do seu isolamento geográfico. As diversas comunidades formadoras da EEJI seguem uma tradição cristã, em parte católica e em parte espírita. Um dado que merece ser aprofundado é que outras comunidades caiçaras como os Mandira de Cananéia, tiveram no passado uma estreita ligação com o espiritismo, provavelmente trazido pelos colonizadores europeus. Na Juréia a crença espírita foi o agente motivador da formação do bairro da Cachoeira do Guilherme28, na década de 1930. Já na porção costeira, nos bairros de Rio Verde, Grajaúna e Praia da Juréia, famílias muito antigas na região (séc. XVII) já praticavam o espiritismo. É o caso da família Prado – o bisavô de seu Onézio do Prado (Antonio Batista do Prado) era médium da Praia da Juréia e trabalhava com outro grupo do Despraiado. Outros médiuns da região da Juréia também citados pelos moradores são seu Henrique Tavares (pai do seu Sátiro Tavares – último líder religioso, médium e curador da Juréia, falecido em 1996), seu Maneco Plácido e seu Job.
Cabe ressaltar que a religião espírita da Juréia não segue os preceitos do espiritismo clássico preconizados por Alan Kardec. Trata-se de um sincretismo onde estão presentes elementos do espiritismo e do catolicismo. É também conhecido como a R eligião Tavarana (alusão ao sobrenome Tavares de seu Sátiro e seu pai – Henrique). Em geral os católicos e espíritas têm um relacionamento respeitoso, abalado por vezes pelo uso da bebida alcoólica por parte dos católicos que é repudiada pelos espíritas. Nos últimos anos (aproximadamente 15 anos) começou a surgir o grupo dos evangélicos e este grupo sim representa uma ruptura nas relações sociais e culturais, pois não compartilham das músicas, danças e festas profanas e religiosas.
Na Juréia a marcação do tempo passado é relatada como tempo “ de dantes”. Algumas comunidades não se visitam mais e também não se reúnem até mesmo para a discussão de problemas comuns, devido a cisões religiosas. Eles acabam se organizando em blocos, o que fragiliza a luta por seus direitos. Nos momentos de lembrar “de dantes”, essas diferenças se diluem e surge o desejo de reviver o passado. Nesse momento identificam-se como pertencentes a um mesmo grupo compartilhando as mesmas tradições culturais. Mahafoud (1996) relata um diálogo entre duas pessoas a respeito da postura dos jovens frente à Folia de Reis comentando que para os jovens, o Reis era bonito, mas era só naquela hora e depois passava. Para eles era diferente, tinha outro significado:
“Pra nós não. Pra nós a gente sabe que toca, lembra do que vejo já de antes, então a pessoa lembra: todo ano fazia aquilo, fulano de tal...Então a pessoa lembra tudo. Aconteceu com a gente também né, a gente também sente. Eles não; a convivência deles é bem diferente da nossa. Em tudo: é sobrevivência, é como viver, como tratar as pessoas, né? É bem diferente. Pra nós não. A nossa convivência no passado é bem diferente de agora.” (Mahafoud, 1996:67)
Para os adultos e principalmente para os velhos dessa comunidade, apreender o significado os remete diretamente a lembranças, do tempo passado, de como era o lugar, da família, do trabalho... Ainda sobre a Folia de Reis na Juréia, Mahafoud reproduz outro diálogo:
“ - Lembrei-me de pai, lembrei-me de mãe, me lembro de tudo meus irmãos aí. (...)  - Eu acho que não tem um que não lembre, sabe, da gente mais velho. Porque essa modernagem não viram o que nós vimo. Não escutaram o que nós escutemo. (...) A gente lembra por ver o lugar que era, e ver agora. Se bem que os morador são todo longe, mas essas tapera por aí era tudo tapera de gente que faleceu, era bastante morador por aqui e agora a gente mora sozinho, desprezado, longe um do outro. Era bonito aqui primeiro. Agora a gente fica até ansiado num lugar desse. É, o jeito é ficar triste, e pronto. É bonito de se lembrar, de escutar, de ver a turma tudo em baixo de amizade tudo concordado é bonito!” A memória da pessoa depende de seu relacionamento com a família, com a classe social, com os amigos, com o trabalho, com a escola, com a igreja, ou seja, com os grupos de convívio e, na maior parte das vezes, lembrar não é (re)viver, mas (re)fazer, (re)construir, (re)pensar com imagens e idéias de hoje as experiências do passado. 

SER CAIÇARA

Parte da dissertação "Do Passado ao Futuro dos Moradores Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins/SP" de Marcia Nunes. (2003)
CONSIDERA-SE CAIÇARA O HABITANTE DO LITORAL SUL DO RIO DE JANEIRO ATÉ O LITORAL NORTE DO PARANÁ.

Os moradores da Juréia só muito recentemente, após os contatos mais constantes com as pessoas procedentes das áreas urbanos, pesquisadores, jornalistas, técnicos etc, passaram a incorporar o termo CAIÇARA  como um sinônimo de si próprio. Eles acabam aceitando que as pessoas os tratem por caiçaras. Esse tipo de permissão não é um auto-reconhecimento, mas não deixa de ser um reconhecimento da identidade imposta. É através do termo caiçara que eles se reconhecem enquanto grupo social para a sociedade abrangente. Apesar das muitas diferenças culturais entre os moradores da Juréia, estes passam a constituir um grupo hegemônico quando se denominam caiçaras. Para o mundo externo, em suas apresentações culturais, nos eventos acadêmicos, em reuniões políticas e reivindicatórias, o uso do termo CAIÇARA é bem freqüente. 
Ser caiçara assume grande importância, por exemplo, na luta pelos seus direitos e anseios, uma vez que o uso do vocábulo morador não provoca no imaginário urbano de quem ouve a imagem imbólica que o termo CAIÇARA produz. No mínimo as pessoas tem uma idéia de que o  caiçara é a pessoa que vive no litoral, pesca e faz artesanato. 
Para os moradores da Juréia, é importante se sentir parte integrante de um grupo social reconhecido pela sociedade, isso lhes confere uma existência real, lhes dá visibilidade, é como se eles se materializassem. A passagem do abstrato para o concreto é muito importante, porque depois de tanto sofrer punições, ameaças, maus tratos, explorações, ficou nessas pessoas um sentimento de “não existência”, de “não ser real”, caso contrário “não seriam tão maltratados”. Também resgata sua auto-estima positiva a partir do momento em que os faz sentir portadores de uma identidade que legitima suas reivindicações pelo reconhecimento nacional de sua cultura secular, muito semelhantemente ao reconhecimento dado aos grupos indígenas e aos quilombolas. Nas conversas com aqueles moradores mais ligados às tradições musicais e festivas da região, eles perguntam se a “gente não acha bonito, se aquilo que eles fazem não é importante”.
Mas o que é ser caiçara?
Segundo o Dicionário Aurélio de 1986, caiçara era sinônimo de: vagabundo, malandro, caipira e praiano, além de designar o habitante de Cananéia e as cercas feitas de madeira para usos diversos. As novas edições, já trazem as modificações exigidas pelos próprios caiçaras. 
MONTEIRO (2002) faz uma reflexão bem interessante quando ao significado do termo caiçara. Há dezenas de edições que este dicionário traz essa explicação, porém a partir do momento que eles se reconhecem como caiçaras, há uma revolta geral pela ratificação do significado atribuído ao caiçara:
Se até poucos anos atrás não se auto-denominavam dessa forma, a adoção repentina desse nome passou a exigir um certo zelo, cuidado e preocupação em relação ao uso e aos usos e significados a ele atribuídos. Entretanto, se o termo é impregnado de conotações pejorativas, por quê sua adoção? A pergunta não é gratuita. Sua resposta exige o entendimento do contexto social e político mais amplo em que se situa a própria essência do movimento desses moradores: a adoção desse termo está diretamente vinculada ao debate que se trava da relação entre populações tradicionais e preservação ambiental, principalmente no âmbito do Vale do Ribeira. Significa dizer que esse grupo de moradores se afirma como caiçaras, na medida em que, nesse debate, são vistos e considerados como tal. Geograficamente se caracterizam por viverem em bairros ou comunidades esparsas, e em algumas casas ou sítios semi-isolados. Os limites entre as propriedades (geralmente posses) são “apalavrados” como dizem os nativos da Juréia, não existem cercas reais entre elas. Somente se a pessoa “for botar” criação é que faz um cercado.