terça-feira, 15 de novembro de 2011

Canoa Caiçara - um povo e sua arte

        As canoas de um tronco só já são raridade, as madeiras mais usadas para a confecção de canoas eram a Guapuruvú (melhor, pois era branca, mole, porém apodrece mais rápido na água doce), Cedro, Timbuva, Canela-Preta, Urucurana, Guaricica, Guanandi, Canela-Garuva, Araribá, Caoví e Canela-Nhunguvira.
       Conhecimentos estes, desaparecendo, frente a fatores diversos, entre eles, a legislação ambiental.

       Início com a poesia de Carrigo, gravada no álbum "Vida Caiçara", do próprio artista, intitulado "Ubá (o último fazedô de canoa)" homenageando Sebastião Santos, Mestre Tião, de Serra Negra.
Ubá é uma canoa / feita de um pau só
Guapuruvu é árvore boa / que dá canoa feita de um pau só
Lá vai Mestre Tião / machadinha na mão
Vai fazendo a canoa / talhada num tronco só
Último guardião / mantendo a tradição
Último fazedô / da canoa de um tronco só
Mão do caiçara / Um dom natural
Tronco talhado / É canoa de pau.

Esta música foi trilha sonora do documentário "O último fazedô de canoa”, dirigido por Jussara Locatelli e Fernanda Morini, produzido pela Realiza Vídeo.

Júlio Alvar, em 1979, observou o caiçara construindo sua própria canoa.
A seguir dois desenhos deste autor retratando esta arte.


Canoa ao mar
Obra: Adailton Galdino (In Memoriam)




Construção de canoa de um tronco só
Foto: Zig Koch
(reprodução / Direitos reservados)




Construção de embarcação Baleeira
Foto: Zé Muniz

Canoa de um tronco só
Foto: Zé Muniz


Segue a entrevista com o Sr. Nivaldo Pontes Célio, 57 anos, morador da comunidade de Utinga-PR, antigo construtor de canoa.

Zé Muniz: Como é que o senhor começa a fazer uma canoa?
Nivaldo: A canoa é no machado, né, tem que derrubar a madeira, que nem tem gente que trabalha com a motoserra, eu trabalho só com o machado. Derruba, tora, é difícil pra fazer, ...a motoserra hoje em dia é mais pra ajudar...

Zé Muniz: Qual é a melhor madeira pra fazer uma canoa?
Nivaldo: Olha vou falar bem a verdade a melhor madeira é cedro, depois tem a canela, Guapuruvu; Guapuruvuru não é madeira bom, poie é a mais fraca.
Zé Muniz: Tem uma época de corta assim? Ou pode cortar?
Nivaldo: Tem época, tem que ser na minguante, pra ficar bom tem que ser na minguante.
Rodrigo: O senhor usava a canoa pra ir até Guaraqueçaba antigamente, o pessoal usava?
Nivaldo: Usava. Todo mundo, primeiro era só na canoa, né, hoje ficou bom, hoje tem estrada aqui, primeiro era só na canoa. Ah, depois tinha o caminho, e também o caminho né, passava um caminho e ia embora, vinha de Guaraqueçaba ia até o Batuva, até na divisa, lá. Aí depois que saiu a estrada tem um lucro, né; Hoje se a pessoa andar por aí não vê mais o caminho, fechou tudo.


Rodrigo: Tem algum motivo pro senhor usar só machado?
Nivaldo: Não; Tem que ter machado, tem que ter enxó; Enxó-Goiva, Enxó-Chata: Enxó Chata é duas mão a Goiva é uma mão só.
Zé Muniz: Aprendeu com quem?
Nivaldo: Meu pai, meu pai trabalhava em canoa, eu era curioso né, um dia me convido prá fazê uma canoa, e fômo fazê, daê chegamo lá o que eu fiz, eu levei um papel, que eu tinha vontade de aprende, e a gente quando é novo tinha vontade de aprender tudo, depois de velho sim, daí já não adianta mais né. É que nem dirigir, eu tinha vontade de dirigir e hoje to dirigindo um pouquinho. Então só eu fui pro mato com meu pai, levei um pedaço de papel, um lápis, conforme o que meu pai fazia ali eu fui fazendo naquele papel, quando nós viemo de tarde eu tava com a canoa quase desenhada inteira, aí depois eu terminei de fazer a canoa com ele, mas o meu papel eu levei, anotei tudinho, aí depois fomo e fizemo mais outra, aí depois já fui faze sozinho, derrubei duas madeira e fui fazer sozinho. E depois que tava pronta meu pai passou lá: Nivaldo você tá fazendo canoa melhor do que já!
Zé Muniz: Como que fazia, ia no mato derrubava a madeira, e pra tira a canoa de lá?

Pescador ao mar em sua canoa de um tronco só
Foto: Guto Lelo

Nivaldo: Ah dae tem que falá com gente né, pra varar a canoa, né, conforme a canoa tem que ser 10, 12 pessoas.
Paulo: Varar que o senhor fala é tirar ela?
Nivaldo: É. Varar é assim pegar e puxar ela. Faze um caminho, faz uma piçada boa, e dae vai varar.
Zé Muniz: O senhor pagava as pessoas que ajudavam?
Nivaldo: Não, primeiro não pagava, hoje que tem o negócio de pagar gente pra trabalhar assim, de primeiro você fazia uma canoa era a coisa mais fácil, puxava podia fazer uma canoa numa serra dessa ai. Chegava aquele dia você falava com gente todo mundo vinha só por causa de cachaça e fandango de noite. Hoje a turma já não gosta mais disso né, tem algum que gosta mais não é que nem antes, antes era bom, hoje em dia ninguém qué mais trabalha meio dia de serviço, pra outro sem receber, já quer receber o dinheiro..
Zé Muniz: Chamavam as pessoas pra vara a noite e o senhor dava o fandango?
Nivaldo: Uhum.
Zé Muniz: Na casa do senhor assim?
Nivaldo: É.

Canoas no porto de Guaraqueçaba
Pintura de J. Maia / acervo: Hotel Eduardo I
Foto: Leandro Diéguiz

Canoas na Colônia de Superagui
Pintura: William Michaud / direitos reservados

Construção de canoa na Colônia de Superagui
Pintura: William Michaud / direitos reservados

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