Para melhor compreendermos o contexto sócio-cultural dos caiçaras é necessário também resgatar os elementos culturais que norteiam essa cultura e o modo de vida a ela associado. Eles irão nos contar fragmentos de sua memória sobre o passado vivido “no sítio”, do seu presente sofrido e de um futuro incerto. Como muito bem alertado por Toledo (1988), não há como resguardar a herança natural de um país, sem que seja dado valor equivalente para a herança cultural:
A Cultura e o Saber Tradicional
A expressão cultura rústica foi utilizada por Antonio Cândido para diferenciá-la de cultural rural, em “Os parceiros do Rio Bonito”. Para ele o termo rural se referia a localização e sua pretensão era exprimir um tipo social e cultural. Seu conceito de rústico poder-se-ia ser traduzido por caboclo, quanto ao tipo racial brasileiro resultado da mistura entre branco e índio, que em São Paulo forma a maioria da população tradicional. Entretanto, Cândido elegeu o termo caipira por exprimir “um modo de ser e um tipo de vida”. O modo de vida do caipira e do caiçara vai se formando nos períodos de crise entre um ciclo econômico e outro. Havia, nos dois primeiros séculos de colonização, uma enorme população de pobres que dispunham como único recurso econômico das terras virgens e sem valor para dela tirarem seu sustento. Segundo Ribeiro (1998), se instala dessa forma “uma economia natural de subsistência, dado que sua produção não podia ser comercializada senão em limites mínimos”. É nesse momento histórico e econômico que se propaga a agricultura itinerante, a derrubada e queimada de áreas florestadas para o plantio das roças anuais e sua complementação com a caça, a pesca, a coleta de frutos e raízes. Outra semelhança entre a cultura caipira e a cultura caiçara está na organização dos bairros rurais.
As formas intermitentes de convívio citadas no trecho acima são as festas, os cultos, os mutirões, os ajutórios, comuns em todas as comunidades caiçaras do Rio de Janeiro ao Paraná, alterando-se apenas as formas de festa (baile, bailado, fandango); (com ou sem bebida alcoólica) e os termos regionais (mutirão, muchirão, demão), etc.
A determinação do ritmo de trabalho é uma das premissas também encontradas na cultura caiçara e um dos lamentos mais freqüentes entre aqueles que deixaram a Juréia. Agora como assalariados ou em “subempregados”, eles não detêm mais a propriedade do ritmo do seu trabalho. A necessidade de coordenar o ritmo do trabalho era mal compreendido pelas pessoas, que passaram a “rotular” o caipira como “limitado de aspirações, que o faz parecer desambicioso e imprevidente, ocioso e vadio” . Provavelmente este modo de enxergar o caipira, tenha sido a origem do significado pejorativo dado ao caiçara.
As culturas caipiras, caiçaras, ribeirinhas, caboclas, camponesas, etc são sub-culturas da cultura ocidental, sendo que o sufixo “sub” indica ramos, fragmentos e não algo inferior ou menos importante. A cultura caiçara é dinâmica, ela está em transformação, sobretudo porque o espaço onde ela se constrói também está se transformando como muito bem apontado por Calvente (1993). Não é possível procurar hoje como cultura caiçara a forma de ver o mundo de 20 ou 30 anos atrás, pois a transformação do espaço exigiu a transformação da cultura.
Entretanto, conhecer como era essa cultura no passado, nós dá uma idéia mais precisa “das perdas” que ela sofreu no processo de crescimento econômico desenfreado e nas sansões ambientais cada vez mais restritivas. Outro ponto importante a ser refletido é que o intercâmbio entre culturas é saudável. A cultura caiçara não precisa se isolar para se manter. Nós os ocidentais é que fazemos parte de uma cultura isolada. Nossa cultura é aberta no sentido de absorver e fechada no sentido de aceitar as diferenças. A exclusão parte da cultura ocidental e não das demais culturas.
Memórias de caiçaras
No livro Memória de Ilhabela: faces ocultas, vozes no ar, Merlo (2000), faz uma reconstituição das muitas faces de Ilhabela/SP através das lembranças dos caiçaras das comunidades mais isoladas da ilha. São lembranças que falam das transformações ocorridas devido ao crescimento do mercado imobiliário no litoral norte de São Paulo, seguidos pelo aumento descontrolado do turismo e a implantação das áreas ambientais protegidas. Sob diversos aspectos da vida cotidiana trás para o presente as vozes do passado.
Em um dos depoimentos, pode-se identificar na fala do nativo da Ilhabela, a preocupação com a continuidade das tradições e festas como símbolo de resistência à cultura e a permanência em seu território:
“Faz uns 10 anos que canto a novena (...) Eu chamo sempre a molecada mas ninguém quer ir. Estou preparando a Verene pra ver se ela fica lá, se ela reza alguma vez. Mas tem gente que reza muito bem lá na igreja (...). Essa tradição não vai acabar, enquanto eu viver não vai acabar. Umas das poucas coisas que resta aqui nesse pedacinho pra cá. De Indaiatuba pra cá é única. Só não acabou no São Pedro e na Praia Grande, e a Congada na Ilhabela. Não sei se no Perequê ainda tem São João, e se a gente não abrir os olhos acaba tudo. Olha uma coisa eu vou te falar, se acabar a Festa de S anta Verônica aqui no Bonete vai ser um transtorno, assim como aconteceu em Indaiatuba. Lá acabaram com a festa e desabou tudo. O pessoal foi saindo, outros morreram e daí pra frente, só aquela tristeza. Só sei que, se acabar, Deus me livre; mas tenho fé em Deus que não acaba. A gente não deixa acabar” (puxador de ladainha – Novena de Santa Verônica, 54 anos – Merlo, 000:111/112)
Mansano (1998) vai discutir as transformações da comunidade do bairro do Cambury (litoral norte de São Paulo) em três etapas distintas: o “Tempo dos antigo”, o “Tempo de transição” e o “Tempo de hoje”. As histórias de violência, de marginalização e da opressão sofrida pelos caiçaras de Cambury, são resgatadas através da memória coletiva do grupo. Também é possível falarmos em tempo futuro, onde a comunidade (re)inventa seu modo de viver à luz dos problemas do presente e do passado perdido. Segundo a autora “passado e futuro são reconstruídos pois, tendo como patamar o presente de luta pelo direito à terra e sobrevivência dos símbolos e tradições, elaborados no cerne de sua relação com o meio onde vivem (...) O caiçara de Cambury tenta resistir à expropriação definitiva e se mantêm no lugar. Mas para isso, incorpora novas concepções, percepções, referenciais e valores à sua visão de mundo, ao mesmo tempo que reiventa seu modo de vida”.
Quando os moradores de Cambury foram chamados a participar das reuniões para a elaboração do Plano de Gestão e Plano de Manejo para o Núcleo Picinguaba do PE Serra do Mar, isso de alguma maneira motivou-os a promover novas eleições na Associação dos Moradores de Cambury, que há muito tempo não aconteciam. Deu-se então um fato emblemático da valorização dos saberes locais: foi eleito um caiçara de 71 anos como presidente da Associação. Essa eleição pode ser considerada uma forma de resgatar o passado. Um símbolo de luta pelas suas tradições, seu lugar, seus direitos.
Seguindo os exemplos de desestruturação de comunidades caiçaras, vamos encontrar no Saco do Mamanguá em Paraty/RJ, uma denominação muito semelhante à de Cambury no dimensionamento dos tempos passado e presente. Os caiçaras de Mamanguá falam em “Tempo da fartura” (até a década de 40) onde havia “abundância de tudo, nada lhes faltava”. O tempo da fartura também foi um tempo onde as pessoas viviam em harmonia, não havia diferença de crença religiosa (eram todos católicos) e nem turistas. (Diegues e Nogara, 1999)
Na Juréia tudo é muito semelhante às demais comunidades caiçaras, mas ao mesmo tempo, há muitas particularidades. Muitas das características apontadas na literatura como sendo da cultura caiçara não são encontradas, ao menos de forma significativa na Juréia (como o abandono aos cultos e festas religiosas), em razão do seu histórico religioso e creio também, do seu isolamento geográfico. As diversas comunidades formadoras da EEJI seguem uma tradição cristã, em parte católica e em parte espírita. Um dado que merece ser aprofundado é que outras comunidades caiçaras como os Mandira de Cananéia, tiveram no passado uma estreita ligação com o espiritismo, provavelmente trazido pelos colonizadores europeus. Na Juréia a crença espírita foi o agente motivador da formação do bairro da Cachoeira do Guilherme28, na década de 1930. Já na porção costeira, nos bairros de Rio Verde, Grajaúna e Praia da Juréia, famílias muito antigas na região (séc. XVII) já praticavam o espiritismo. É o caso da família Prado – o bisavô de seu Onézio do Prado (Antonio Batista do Prado) era médium da Praia da Juréia e trabalhava com outro grupo do Despraiado. Outros médiuns da região da Juréia também citados pelos moradores são seu Henrique Tavares (pai do seu Sátiro Tavares – último líder religioso, médium e curador da Juréia, falecido em 1996), seu Maneco Plácido e seu Job.
Cabe ressaltar que a religião espírita da Juréia não segue os preceitos do espiritismo clássico preconizados por Alan Kardec. Trata-se de um sincretismo onde estão presentes elementos do espiritismo e do catolicismo. É também conhecido como a R eligião Tavarana (alusão ao sobrenome Tavares de seu Sátiro e seu pai – Henrique). Em geral os católicos e espíritas têm um relacionamento respeitoso, abalado por vezes pelo uso da bebida alcoólica por parte dos católicos que é repudiada pelos espíritas. Nos últimos anos (aproximadamente 15 anos) começou a surgir o grupo dos evangélicos e este grupo sim representa uma ruptura nas relações sociais e culturais, pois não compartilham das músicas, danças e festas profanas e religiosas.
Na Juréia a marcação do tempo passado é relatada como tempo “ de dantes”. Algumas comunidades não se visitam mais e também não se reúnem até mesmo para a discussão de problemas comuns, devido a cisões religiosas. Eles acabam se organizando em blocos, o que fragiliza a luta por seus direitos. Nos momentos de lembrar “de dantes”, essas diferenças se diluem e surge o desejo de reviver o passado. Nesse momento identificam-se como pertencentes a um mesmo grupo compartilhando as mesmas tradições culturais. Mahafoud (1996) relata um diálogo entre duas pessoas a respeito da postura dos jovens frente à Folia de Reis comentando que para os jovens, o Reis era bonito, mas era só naquela hora e depois passava. Para eles era diferente, tinha outro significado:
“Pra nós não. Pra nós a gente sabe que toca, lembra do que vejo já de antes, então a pessoa lembra: todo ano fazia aquilo, fulano de tal...Então a pessoa lembra tudo. Aconteceu com a gente também né, a gente também sente. Eles não; a convivência deles é bem diferente da nossa. Em tudo: é sobrevivência, é como viver, como tratar as pessoas, né? É bem diferente. Pra nós não. A nossa convivência no passado é bem diferente de agora.” (Mahafoud, 1996:67)
Para os adultos e principalmente para os velhos dessa comunidade, apreender o significado os remete diretamente a lembranças, do tempo passado, de como era o lugar, da família, do trabalho... Ainda sobre a Folia de Reis na Juréia, Mahafoud reproduz outro diálogo:
“ - Lembrei-me de pai, lembrei-me de mãe, me lembro de tudo meus irmãos aí. (...) - Eu acho que não tem um que não lembre, sabe, da gente mais velho. Porque essa modernagem não viram o que nós vimo. Não escutaram o que nós escutemo. (...) A gente lembra por ver o lugar que era, e ver agora. Se bem que os morador são todo longe, mas essas tapera por aí era tudo tapera de gente que faleceu, era bastante morador por aqui e agora a gente mora sozinho, desprezado, longe um do outro. Era bonito aqui primeiro. Agora a gente fica até ansiado num lugar desse. É, o jeito é ficar triste, e pronto. É bonito de se lembrar, de escutar, de ver a turma tudo em baixo de amizade tudo concordado é bonito!” A memória da pessoa depende de seu relacionamento com a família, com a classe social, com os amigos, com o trabalho, com a escola, com a igreja, ou seja, com os grupos de convívio e, na maior parte das vezes, lembrar não é (re)viver, mas (re)fazer, (re)construir, (re)pensar com imagens e idéias de hoje as experiências do passado.
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